Como funciona o calendário das temporadas de moda

O calendário de moda internacional é composto por 4 coleções anuais de Ready-to-Wear que antecipam as temporadas em seis meses no exterior e quase um ano no Brasil (em teoria).

Em setembro, no começo do inverno do hemisfério norte, temos a temporada de Verão Ready To Wear, as mais importantes e efervescentes semanas de moda internacional abrindo o mês em Nova York, Londres, Milão e fechando em Paris.

Outras capitais emergentes de moda tem ganhado cada vez mais espaço na mídia como Copenhagen, Berlim e México, além das semanas asiáticas em Tóquio e Shangai. A temporada Ready-to-Wear, ou também conhecida como Prêt-à-Porter, apresentam coleções de moda que vão para as lojas globais e e-commerces das marcas em escala.

Diferente da Alta-Costura, na temporada ready-to-wear, todas as marcas dos grupos de moda ou até mesmo independentes apresentam coleções dentro do calendário das Semanas de Moda ou em eventos paralelos na mesma época.

Além dos desfiles na temporada Ready-to-wear, acontecem apresentações nos showroons das marcas para convidados da imprensa internacional, incluindo influenciadores digitais, embaixadores das marcas, compradores de grandes lojas de varejo de luxo como as norte-americanas Saks e Net-a-Porter, por exemplo, além de clientes. Nesses eventos a intenção é ver as coleções de perto, fora das passarelas e com mais tempo para cada detalhe que valoriza o produto.

Em janeiro a primeira temporada de Alta-Costura apresenta o verão (no meio do ano), e é seguida pela Semana de Moda Masculina Ready-To-Wear no mesmo período. Em março, quando o verão no hemisfério norte está começando, as semanas de moda apresentam a temporada de Inverno Ready-toWear. De modo geral, a principal diferença é que a Alta-Costura apresenta suas coleções com 6 meses de antecedência, enquanto o Ready-to-Wear apresenta as coleções com até 1 ano de antecedência.

Agora vem uma informação crucial:

Por causa disso, o que vemos nas passarelas internacionais chegará as lojas apenas um ano depois do evento – no mínimo 6 meses.

Por isso, quando pensar em tendências para o varejo, saiba que elas não passam tão rápido como parecem. Interpretações de estilo aparecem em diversas marcas durante a apresentação das coleções e chegarão as ruas do mundo algum tempo depois — teoricamente.

Nem toda tendência nasce nas grifes, com a globalização da informação pelas redes sociais tudo parece acontecer ao mesmo tempo. Porém, a indústria da moda, por mais acelerada que seja hoje em dia com gigantes de varejo popular online como algumas lojas asiáticas e fast fashion internacional, ainda existe o tempo de produção e distribuição, absorção de todos os comportamentos de consumo em diferentes mercados.

Na moda brasileira seguimos o calendário internacional, apesar dele não fazer muito sentido no mercado interno.

Muitos profissionais da área já falam sobre isso, afinal, um país tropical com mais de 9 meses de calor não tem a necessidade de fazer liquidação em novembro — que seria o auge da nossa demanda de consumo (férias, feriados, viagens), enquanto a Black Friday internacional está em pleno início de inverno.

Outra questão é lançar inverno em março e quando o clima realmente esfria em julho e agosto, as lojas apresentam apenas o refugo dos lançamentos, investindo em preview de verão. É complexo seguir uma norma em um país continental como o Brasil, cada região tem seu clima, estilo de consumo e necessidades.

No segmento do calçado e têxtil, marcas brasileiras seguem o calendário internacional pois trabalham com exportação. Entretanto, marcas que atendem exclusivamente o mercado nacional precisam focar em atender o seu próprio calendário de lançamentos e desejos do público final.

Acne Studios

Além das grandes temporadas de Spring/ Summer (Verão) e Fall/ Winter (Inverno) na categoria Prêt-à-Porter/Ready-to-Wear, temos as temporadas Pre-Fall e Resort (ou Cruise) que representam peças mais comerciais, baseadas em dados de marketing e vendas, com foco no consumidor e distribuição global — são os previews de alta temporada. Enquanto na Alta-Costura, por exemplo, o DNA, a capacidade técnica e criativa das marcas é enaltecida.

O que a moda internacional representa para o mercado brasileiro?

As marcas tem um enorme poder de influência sob os desejos de consumo, mesmo que as pessoas não conheçam sua história ou seus produtos, uma bolsa Louis Vuitton, por exemplo, tem um peso simbólico no imaginário coletivo como representação de sucesso e poder.

Por outro lado, a moda desencadeia diversas discussões como o consumo de cópias, réplicas de produtos de marca como forma de auto-afirmação e pertencimento.

Vemos fenômenos na geração Z através de milhares de vídeos no Tiktok com dicas de como comprar “Dupes”. Ou seja, cópias de outras marcas por preços acessíveis em fábricas chinesas. Isso é uma realidade que abrange muito mais do que a geração mais jovem – fala do nosso caráter, o que valorizamos como consumidores e o que buscamos expressar quando nos vestimos.

Não é apenas sobre preço baixo, é sobre cópia de produto, etiqueta e logomania. Podemos falar também do cansaço visual que temos de alguns produtos e tendências que vemos no Instagram e se quer chegaram as lojas ainda.

Moda é arte!

O que podemos aprender com a Alta-Costura e o mercado de luxo?

Diferenciação, durabilidade e técnicas artesanais. Por causa disso, marcas que sobrevivem através dos séculos possuem identidade própria. São muito mais do que um negócio, mas a representação de uma cultura, símbolos sociais e até mesmo mitológicos para sociedade de consumo.

As peças de Alta-Costura são feitas para sonhar com o possível. É a moda em forma de arte!!

Conteúdo original publicado na Edição #6 da Prosa/ Mentoria em agosto de 2023. Editado em 28/09/2026.

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